O Materialismo e o Idealismo na Era da Revolução Industrial: Duas Correntes Filosóficas Opostas.
Um assunto verdadeiramente atual.
A Revolução Industrial, que se desenrolou principalmente entre o final do século XVIII e meados do século XIX na Europa, não representou apenas uma transformação tecnológica e económica. Foi também um momento de profunda reflexão filosófica sobre a natureza da realidade, o progresso humano e as forças que impulsionam a história. Nesse contexto, emergiram duas correntes opostas que marcaram o pensamento ocidental, o idealismo e o materialismo.
Estas correntes surgem como antíteses diretas, com o idealismo a colocar as ideias e o espírito no centro da existência, enquanto o materialismo defende que a matéria e as condições concretas precedem e determinam tudo. Esta oposição não foi meramente académica; influenciou debates sobre a organização social, o trabalho e o futuro da humanidade numa era marcada pela mecanização, pela urbanização e pela divisão do trabalho.
O idealismo tem raízes antigas e foi sistematizado de forma moderna por figuras centrais. A sua ideia principal é que a matéria é secundária em relação à ideia, “matéria é ideia secundária”. A filosofia mítica que lhe dá origem remonta ao filósofo grego Platão (século V-IV a.C.), que, na obra A República, distinguia o mundo sensível (imperfeito e mutável) do mundo das Ideias (eterno e perfeito). Para Platão, o conhecimento verdadeiro não vem da experiência sensorial, mas da contemplação racional das formas ideais. Esta visão foi profundamente desenvolvida por Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), o grande sistematizador do idealismo alemão. Hegel transformou o idealismo numa filosofia dinâmica, centrada no desenvolvimento do espírito absoluto através da história.
Neste sentido, destaca-se que para o idealista, “cada corrente filosófica olha as coisas antes da matéria” o foco está no desenvolvimento das ideias, não na matéria física. Através de ideias abstratas, o homem constrói a sua ação e responde às necessidades do dia-a-dia. Essas ideias não existem no mundo real de forma concreta, mas atribuem-lhe forma conceptual. O processo cognitivo hegeliano é ilustrado pela famosa dialética, tese, antítese e síntese. A tese corresponde à ideia original; a antítese é a contra-argumentação que a desafia; a síntese surge da comparação das duas, gerando um novo patamar superior. Este movimento não é estático, mas progressivo, refletindo o avanço do espírito.
Todavia, sublinham-se limitações e críticas ao idealismo; a principal crítica é a impossibilidade de reduzir a realidade a meras ideias abstratas, ignorando as condições materiais concretas. O idealismo coloca “superiormente o mundo fundamental ao espiritual”, considerando que são as ideias abstratas que desenvolvem a história e a evolução humana. Nesta perspetiva, a materialidade não é valorizada, “idealismo não valoriza a materialidade, a materialização, a mundanidade”.
No século XIX, este conteúdo assumiu um tom conservador, pois enfatizava o espírito e as ideias como forças motrizes, minimizando o impacto das transformações industriais reais, como a exploração do proletariado ou as condições de vida nas fábricas. Hegel, embora influenciado pela Revolução Francesa e pelas mudanças da sua época, via a história como realização do espírito, não como fruto de lutas materiais.
Em contraste direto surge o materialismo, apresentado como a “antítese do idealismo”. Defende que “a matéria precede a ideia”. As condições materiais dos homens fornecem as bases reais para a definição da evolução e do desenrolar da história. Elementos centrais são as “subsistências e produção”, que se tornam o ponto de partida para a interpretação da sociedade e do desenvolvimento humano. Aqui, não existe “um mundo espiritual superior, nada transcendente no mundo real e material”. A história humana é “fruto da divisão do trabalho e da forma como as forças de produção se organizam”, uma clara perspetiva marxista.
O materialismo histórico, sistematizado por Karl Marx e Friedrich Engels, surge precisamente nesta era industrial como resposta ao idealismo hegeliano. Marx “inverte” Hegel, em vez de o espírito determinar a matéria, são as relações de produção e as forças produtivas (tecnologia, trabalho, recursos) que moldam as ideias, a consciência e as superestruturas (direito, religião, política). Entenda-se que o materialismo é tratado “através da perspetiva científica experimental”. O “lineamento” (ou delineamento) deste pensamento destaca a ambição e a aspiração do homem enquanto criativo e inovador, culminando na ideologia da industrialização. O homem, ao dominar a natureza através da produção, transforma-se a si mesmo e à sociedade.
Importa salientar que o materialismo “não é 100% liberal e progressista”. Há críticas internas, especialmente de Marx, que via no capitalismo industrial uma contradição, embora as forças produtivas avançassem, as relações de produção (propriedade privada) geravam alienação e exploração. O proletariado, produto direto da Revolução Industrial, seria o agente da mudança dialética; não uma dialética idealista de ideias, mas uma dialética materialista de classes. A produção e a subsistência determinam a consciência, “os homens existem em relação ao modo de produção de seres humanos concretos”. Esta visão baseia-se em “preceitos reais”, não em abstrações.
Comparando as duas correntes, revela-se uma oposição clara. O idealismo é mais “espiritual e estabelecido”, pois parte de um mundo de ideias puras e formas conceptuais. Já o materialismo é “mais interpretativo” e “procura a afirmação do mundo, corpo material e científico”, sendo portanto “mais otimista”. Enquanto o idealismo pode levar a um conservadorismo (ao priorizar o espírito sobre as mudanças materiais), o materialismo oferece uma ferramenta analítica para compreender as transformações da Revolução Industrial, o vapor, as máquinas, a urbanização não são meras realizações de ideias, mas resultados de forças produtivas que geram novas relações sociais.
No contexto histórico concreto da era industrial, esta oposição ganha relevância. A Revolução Industrial britânica (1760-1840) e a sua expansão continental criaram um mundo onde a matéria, carvão, ferro, têxteis dominava a vida quotidiana. O idealismo hegeliano, embora influente nas universidades alemãs, parecia distante das fábricas de Manchester ou das minas do Ruhr. Hegel via o Estado prussiano como síntese do espírito; os materialistas viam o mesmo Estado como instrumento da burguesia para manter o controlo sobre o trabalho assalariado. A dialética idealista (tese antítese síntese) foi “invertida” por Marx no materialismo dialético, a tese é o modo de produção feudal/capitalista; a antítese, as contradições internas (crises, luta de classes); a síntese, o socialismo.
Esta inversão não foi apenas filosófica; teve implicações políticas e económicas. O idealismo, ao atribuir primazia às ideias abstratas, podia justificar desigualdades como “necessárias” para o progresso espiritual. O materialismo, ao contrário, exigia ação concreta, organização sindical, revoluções, reforma das condições de trabalho. Desta forma sublinho que, no materialismo, a história é “produto da divisão do trabalho” e da organização das forças produtivas, exatamente o que se observava com a máquina a vapor de James Watt ou o tear mecânico de Cartwright. O homem criativo e inovador é o trabalhador industrial que, ao dominar a técnica, altera as relações sociais.
Apesar das críticas mútuas, ambas as correntes contribuíram para o pensamento moderno. O idealismo legou-nos à dialética como método de análise dinâmica; o materialismo ofereceu uma visão científica e otimista da capacidade humana de transformar a realidade. Na era industrial, o materialismo revelou-se mais adaptado à realidade, explicava o pauperismo, a acumulação de capital e a alienação sem recorrer a um “mundo espiritual superior”. Assim sendo o materialismo é “mais otimista” porque afirma o mundo material e científico, enquanto o idealismo, embora elevado, pode parecer escapista.
Em suma, o debate entre materialismo e idealismo na Era da Revolução Industrial não foi abstrato. Refletiu o choque entre uma visão espiritual conservadora e uma visão científica transformadora. A doutrina capta esta tensão com clareza: o idealismo, de Platão a Hegel, valoriza as ideias como motor da história; o materialismo, com a sua ênfase na produção e na matéria, vê na Revolução Industrial o palco onde o homem concreto se realiza.
Hoje, em pleno século XXI, com a revolução digital e a inteligência artificial, este debate permanece atual. Aqui chegados devemo-nos questionar ainda se são as ideias (inovação tecnológica) que impulsionam o progresso, ou são as condições materiais (recursos, trabalho, desigualdades) que os determinam?
Penso que me é permite afirmar que a resposta parece que reside na síntese possível entre ambos, mas sempre com a matéria como base real.
Bibliografia
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