A Guerra da Rússia e Ucrania
A Guerra Russo Ucraniana: Contexto Histórico, Dinâmicas Geopolíticas e Implicações Contemporâneas
Resumo
O conflito armado entre a Federação Russa e a Ucrânia, iniciado em sua fase de alta intensidade em 24 de fevereiro de 2022, constitui um dos eventos geopolíticos mais relevantes do século XXI. O presente ensaio analisa as raízes históricas do conflito, as disputas identitárias entre russos e ucranianos, o legado do período soviético, a evolução da Ucrânia independente e as principais interpretações teóricas em relações internacionais (realismo, liberalismo e construtivismo). Conclui-se que a prolongação do conflito revela não apenas a persistência de ambições imperiais russas, mas também limitações estruturais nas instituições multilaterais ocidentais e na capacidade de coordenação estratégica da União Europeia e da OTAN.
Palavras-chave: guerra russo ucraniana, geopolítica, realismo, liberalismo, construtivismo, identidade nacional, expansão da OTAN
1. Introdução
O conflito entre a Rússia e a Ucrânia, cuja fase de maior intensidade teve início em fevereiro de 2022, não pode ser compreendido como um evento isolado. Suas origens remontam a séculos de interações históricas, disputas identitárias e transformações geopolíticas no espaço pós soviético. A análise requer a consideração de fatores históricos, políticos e identitários, bem como das dinâmicas estruturais do sistema internacional contemporâneo.
2. Relações Históricas entre Rússia e Ucrânia: Origens e Disputas Identitárias
A relação entre russos e ucranianos tem origem na Rus’ de Kiev (séculos IX–XIII), entidade frequentemente descrita pela historiografia russa como o berço comum da civilização eslava oriental (Subtelny, 2009). Contudo, entre os séculos XIV e XVIII, grande parte do território ucraniano desenvolveu trajetórias políticas e culturais distintas sob o domínio do Grão-Ducado da Lituânia, da Comunidade Polaco Lituana e, posteriormente, do Império Habsburgo (Plokhy, 2015).
A partir do final do século XVIII, o Império Russo promoveu processos intensivos de russificação, suprimindo manifestações culturais ucranianas. Tentativas de construção de um Estado ucraniano independente emergiram após a Revolução Russa de 1917, mas foram rapidamente sufocadas. Com a criação da União Soviética, a Ucrânia foi incorporada como república constitutiva, mantendo autonomia formal limitada e sob controle central de Moscovo.
3. O Período Soviético e os Traumas Fundacionais
Durante a era soviética, a Ucrânia desempenhou papel central na economia e na defesa da URSS. Contudo, o período foi marcado por episódios traumáticos, destacando-se o Holodomor (1932 e 1933), fome artificial que causou a morte de milhões de ucranianos e é reconhecido por diversos Estados e scholars como genocídio (Applebaum, 2017).
A Segunda Guerra Mundial aprofundou divisões internas, setores da população colaboraram com o Exército Vermelho, enquanto outros apoiaram movimentos nacionalistas antissoviéticos. No pós-guerra, a Ucrânia consolidou-se como polo industrial e sede da Frota do Mar Negro, na Crimeia.
4. A Ucrânia Pós-1991: Independência e Polarização Geopolítica
A independência formal foi alcançada em 1991, ratificada por referendo com ampla maioria. O Memorando de Budapeste (1994), assinado por Rússia, Estados Unidos e Reino Unido, garantiu a integridade territorial ucraniana em troca da desnuclearização do país (Mearsheimer, 2014).
A política interna foi caracterizada por alternância entre elites pró-russas e pró-ocidentais. A Revolução Laranja (2004–2005) e a Revolução da Dignidade (Euromaidan, 2013 e 2014) expressaram aspirações majoritárias de integração europeia e rejeição à corrupção e à influência russa.
5. 2014: Anexação da Crimeia e Início da Guerra no Donbass
Em resposta ao Euromaidan e à deposição de Viktor Yanukovich, a Rússia ocupou e anexou a Crimeia em março de 2014, justificando a ação como proteção de populações russófonas e de interesses estratégicos. A anexação foi condenada pela Assembleia Geral da ONU e considerada violação do direito internacional (Allison, 2014).
Simultaneamente, conflitos armados eclodiram no Donbass, com apoio militar russo a separatistas pró-Moscovo. Os Acordos de Minsk (2014 e 2015) estabeleceram cessar fogo parcial, mas não resolveram as questões de fundo.
6. A Invasão de 2022 e as Interpretações Teóricas
Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia lançou uma invasão em larga escala, justificando-a como operação de “desnazificação” e “desmilitarização”. As interpretações acadêmicas variam conforme as principais correntes das relações internacionais;
6.1 Realismo
Do ponto de vista realista, a expansão da OTAN para o Leste Europeu após 1991 foi percebida por Moscovo como ameaça existencial à sua segurança. A possibilidade de adesão ucraniana à Aliança representaria a perda definitiva da zona de influência histórica russa, justificando, na lógica realista, uma resposta preventiva (Mearsheimer, 2014).
6.2 Liberalismo
A perspectiva liberal destaca o fracasso das instituições multilaterais em prevenir a escalada. O veto russo no Conselho de Segurança da ONU e a anterior dependência energética europeia da Rússia limitaram a capacidade de dissuasão coletiva, evidenciando os limites do institucionalismo liberal quando confrontado com potências revisionistas.
6.3 Construtivismo
A abordagem construtivista enfatiza o papel das identidades e narrativas históricas. A Rússia mobiliza a ideia de “um só povo” e a herança da Rus’ de Kiev para legitimar sua ação, enquanto a Ucrânia constrói identidade nacional distinta, ancorada em memórias traumáticas (Holodomor, repressão cultural) e na orientação europeia (Plokhy, 2015; Wilson, 2015).
7. Implicações Globais e Obstáculos à Resolução
O conflito gerou crise energética europeia, insegurança alimentar global e reconfiguração de alianças, com a adesão de Finlândia e Suécia à OTAN. As sanções ocidentais aceleraram a aproximação russo chinesa e russo iraniana.
A prolongação da guerra expõe dificuldades de coordenação estratégica na União Europeia e hesitação da OTAN em adotar envolvimento direto, temendo escalada nuclear. Tais limitações contribuem para a perpetuação de um impasse militar de alto custo humano e material.
8. Conclusão
A guerra russo ucraniana constitui um ponto de inflexão na ordem internacional pós Guerra Fria. Resulta da interação entre ambições imperiais russas, aspirações nacionais ucranianas e limitações estruturais das instituições ocidentais. Seu desfecho permanece incerto, mas já redefiniu equilíbrios de poder na Europa e no sistema global.
Referências
Allison, R. (2014). Russian “deniable” intervention in Ukraine: How and why Russia broke the rules. International Affairs, 90(6), 1255–1297. https://doi.org/10.1111/1468-2346.12170
Applebaum, A. (2017). Red famine: Stalin’s war on Ukraine. Doubleday.
Galeotti, M. (2022). Putin’s wars: From Chechnya to Ukraine. Osprey Publishing.
Mearsheimer, J. J. (2014). Why the Ukraine crisis is the West’s fault: The liberal delusions that provoked Putin. Foreign Affairs, 93(5), 77–89.
Plokhy, S. (2015). The gates of Europe: A history of Ukraine. Basic Books.
Subtelny, O. (2009). Ukraine: A history (4th ed.). University of Toronto Press.
Wilson, A. (2015). The Ukrainians: Unexpected nation (4th ed.). Yale University Press.



