segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Os Velhos e Novos Atores Políticos: Partidos e Movimentos Sociais

 






Os movimentos sociais, enquanto fenómenos de ação social, determinantes nas sociedades contemporâneas, atento à questão da relação existente entre elites, democracia e corrupção. 

 Os movimentos da sociedade sempre foram um fator decisivo na história humana, sendo que, no back stage operam, atores, ideias e recursos que se organizam de diferentes formas para conseguir soluções coletivas aos problemas enfrentados. Nesse sentido, para entender a sua dinâmica, diferentes teóricas ocorreram, especialmente nos EUA e na Europa. Nos estudos europeus, o foco marchou para a formação da identidade coletiva, noutra vertente, foram os estudos norte-americanos, que explorou e apadrinhou as componentes ligadas à estratégia e à estrutura dos movimentos sociais.  

Segundo Broom e Selznick os movimentos sociais podem ser classificados em consonância com os seus objetivos e os seus elementos constituintes. Para Chazel, o movimento social atende à ideologia e ou organização.                                                 

Atualmente, a globalização e as redes sociais vieram contribuir para o surgimento de novas formas de organização, conferindo aos movimentos sociais mais dinamismo, que descentralizados são competentes para persuadir a formação dos atores intervenientes, e consequentemente, influenciar na formulação das estratégias.  Pelo exposto, as opções que sobram à elite da política governante, face aos movimentos sociais é impregnar-se nos mesmos e incorporar parte dos seus líderes, eliminar ou proibir os movimentos, conceder cedências aos movimentos sociais ou inclusive ignorar os próprios movimentos sociais. Estes últimos transformam o mundo, porque mudam as leis e modificam as estruturas sociais, revelando uma variedade de atores imprevistos; as classes, os partidos, as organizações, as elites, entre outros.            

Em suma, com a democratização a corrupção transformou-se em alguns casos, em regimes políticos cleptocráticos, que obstruem o normal funcionamento das instituições e possibilitam o surgimento de novas formas de autoritarismo.

Em bom rigor, é nos casos mediáticos como a “Operação Marquês”, com o envolvimento de um antigo primeiro-ministro Português, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, em casos de corrupção, são razões de enorme preocupação, não só pela forma como trás desconfiança às instituições públicas, bem como, o descredito às elites políticas. Nesse sentido, estes fenómenos têm sido amplamente analisados do ponto de vista Sociológico, uma vez que, estes acontecimentos têm um grande impacto na sociedade, transformando-a, nomeadamente, através da adoção de novas leis. Assim sendo, no âmbito desta temática é necessário perceber alguns conceitos essenciais, designadamente, movimentos sociais, movimentos coletivos, globalização, cidadania, democracia e ideologia, entre outros…   

 Em sentido restrito e atento a Nolan e Lenski, o movimento social é um grupo com ligações flexíveis, que pretende a mudança da sociedade. Por outro lado, o comportamento coletivo é de curta duração e está tacitamente ligado a motivos emocionais, que termina com a resolução da situação que o despoletou. Efetivamente, nos dias de hoje, devido à dinâmica criada pelas etapas de protesto, impulsionado pela globalização, surgem novas ideologias, resultado da reconfiguração da cidadania politica; mais interventiva, participativa e exigente, simultaneamente, resultado do paradigma dos movimentos sociais. Ao analisar a distinção entre comportamento coletivo e movimento social, é necessário especial atenção à acepção e dimensões que comporta, designadamente, espacial, temporal e amplitude social.                                                                   

Desse modo, em todas as sociedades, existe graus diferentes de legitimação do poder, motivações e incentivos para a participação política, conduzindo a conflitos e tensões duradouras, entre estas diferentes modalidades e incentivos, que se reconhecem mutuamente como ilegítimos ou corruptos.                                                                                

É por demais evidente, que uma das características fundamentais de um sistema social coeso é a legitimidade das suas instituições públicas. Consequentemente, é esta legitimidade que permite que as autoridades públicas executem os seus mandatos com autoridade e eficiência, e o mínimo de coerção. Sempre que esta legitimidade não exista, a autoridade só pode se exercida, pelo autoritarismo e violência, ou uso da corrupção, através da cooptação de aliados e eleitores, recentemente verifica-se uma combinação de ambos. Dessa forma os regimes autoritários beneficiam a corrupção, onde, os regimes corruptos, terão sempre uma tendência ao autoritarismo, procurando diminuir a liberdade de imprensa, a autonomia do judiciário, e o exercício livre das oposições. 

A corrupção prejudica a coesão social de varias formas, designadamente, a corrupção económica impossibilita a competição salutar por preços e qualidade de produtos e serviços entre empresas, inibindo o investimento de longo prazo, demarcando desta forma o crescimento da economia e a distribuição de benefícios para toda a sociedade. 

O fraco desenvolvimento económico, a ineficácia, ineficiência e desigualdade de receita prejudica diretamente a crença na legitimidade das instituições, e aumenta os conflitos sociais. Para além disso a corrupção económica, ao corromper todos os níveis do setor publico, obstrui o desenvolvimento e fortalecimento de uma administração pública profissional de qualidade. Esta ultima, desperta ainda a seleção negativa de dirigentes políticos.  Por outro lado, apesar de a corrupção política em determinados momentos elevar a participação e acesso de determinados setores aos benefícios do poder, também colabora para a desmoralização da instituições e a evolução do abismo progressivo entre as leis e os códigos funcionais da vida quotidiana. Em termos democráticos a corrupção económica dificulta o funcionamento da democracia. 

Grosso modo é nas sociedades pouco desenvolvidas economicamente, onde sobressai a corrupção económica e política, principalmente por causa das desigualdades e por não possuírem mercados transparentes, onde o funcionamento das leis e o comportamento das autoridades públicas é imprevisível, refletindo-se em instituições públicas de pouca legitimidade.                                                                                     

Uma outra visão contrária ao período de crescimento económico pós 2ª Grande Guerra, é garantido pelos acordos e pela pacificação das diferenças ideológicas. Atualmente, as sociedades afetadas pela crise global, parecem empurradas a realçar as diferenças ideológicas e adotar uma posição de luta antissistema. Resultado de uma reorganização da cidadania política e das vicissitudes dos partidos políticos, novas maneiras de mobilização coletivas surgem, fortalecendo-se como princípios ideológicos. Apesar do aumento da inatividade da sociedade em relação aos partidos políticos, a ideologia está presente na rotina quotidiana do cidadão, onde os governos se vão substituindo na cadeira do poder, consequência da pressão que a democracia representativa está sujeita. Aqui chegados importa esclarecer que o comportamento coletivo e movimento social têm de ser perspetivados quanto ao sentido e dimensões que contêm, componente, espacial, temporal e amplitude social, assim sendo, o comportamento coletivo define-se como um comportamento casual e extra institucional. Resumidamente, o comportamento coletivo constitui uma ação espontânea, informal, imprevisível, ditada pelas normas dos seus participantes sem suporte ou enquadramento ideológico ou doutrinal, baseando-se numa dimensão espacial, temporal sujeita às ações a que propõem-se dar contestação imediata, logo espacialmente podem assumir o formato de ocorrência local, nacional ou até internacional, podendo durar minutos, horas ou dias. Este ainda está implicitamente ligado a causas emocionais, daí o seu caracter efémero, uma vez que, termina com a resolução da situação.

O movimento social afirma-se como uma ação coletiva de um grupo organizado menos natural e mais aperfeiçoado, opondo-se à ordem institucional, onde o seu objetivo é atingir as mudanças sociais, através do confronto político. Em contraste ao comportamento coletivo, a dimensão espácio temporal caracteriza-se pela forte extensão de acontecimento e de longevidade, que leva à continuidade de atuação do movimento não se esgotando a sua atuação após a resolução de um problema, perante a variedade de preocupações que os unem.

Em suma o comportamento coletivo tem como características a incidência do local; a conduta dos envolvidos visa uma resposta imediata para o problema; surge como uma ação espontânea, de um grupo ligado intimamente por motivações, sendo de cariz efémero.

Relativamente ao Movimento Social, este assume-se como movimento, devidamente planeado, estruturado nas suas ações, tendo um líder a assumir a direção do movimento. Advoga uma atitude oposta à ordem institucional, o comportamento do movimento é organizado, propositado e intencional, na organização de manifestações de luta e protesto numa variedade de situações conexas à prestação de serviços públicos. È sobretudo um Movimento que não se esgota, numa ação ocasional, arrogando-se contra a ordem institucional funcionando como um grupo de pressão, mantendo-se ativo com grande capacidade de mobilização e durabilidade, devidamente estruturado junta várias comissões e associações dos serviços públicos.

Atento a Neil Smelser e relativamente aos comportamentos coletivos, são seis as condições necessárias para o seu aparecimento e respetiva reação pretendida da sociedade, ou seja, uma representação piramidal, que abrange em sentido ascende os subsequentes patamares; condições estruturais favoráveis; tensões estruturais; emergência e difusão de uma crença generalizada; fatores precipitantes; mobilização para a ação; ausência de controlo social. Trata-se assim de uma teoria que se situa no âmbito das teorias do comportamento coletivo, derivada do funcionalismo de Talcott Parsons, que acentua a relação entre a composição estrutural das sociedades e a origem dos movimentos sociais, denominada de teoria das tensões estruturais. É uma teoria que procura alcançar através da identificação das condições favoráveis, à ocorrência de um comportamento coletivo, a explicação e compreensão da constituição dos movimentos sociais na sociedade.                                              

Por outro lado, esta teoria assume proporções demasiado mecanicistas, sendo que os movimentos são vistos mais sob a perspectiva do produto de tensões sociais e agentes de perturbação e desordem, maioritariamente ligados a comportamentos irracionais. O comportamento coletivo é assim entendido como derivado, pois da falha de equilíbrios, despreza a importância dos valores individuais, dos média e da cooperação internacional nas formas de constituição e desempenho dos movimentos Sociais.   

 No que diz respeito aos protestos levados a cabo pela função pública em geral, as condições foram preenchidas, pela existência de situações favoráveis associadas à crescente recuperação do emprego e da economia em geral, que converge na criação de condições estruturais favoráveis e no desenvolvimento de algumas reivindicações sociais.                                  

  A crise económica europeia que se alastrou revelou a incapacidade das instituições, em dar resposta aos problemas propiciando o aumento das tensões sociais e em simultâneo, favoreceu a difusão de propostas alternativas às instituições. Por outro lado, a convergência de fatores determinantes na validação do protesto, uma confluência vertida em dois grandes blocos de reivindicações, melhores salários e Sistema Político anticorrupção. Da mobilidade dos intervenientes, é conseguida à custa de um engenhoso aproveitamento das redes sociais e das novas tecnologias, bem como, de um privilegiar de novas formas de marketing.                                                                                            

Por último no que diz respeito ao imperfeito controlo social, é de referir que, a imagem transmitida, pelos órgãos de comunicação social ou até através da internet sobre atuação desses movimentos pode fortalecer, criar simpatia pelo grupo, como também pode se revelar o oposto. A tolerância e permissão do nosso sistema institucional desempenha um papel fundamental.

 

BIBLIOGRAFIA:

 

- BESSA, António Marques – Elites e Movimentos Sociais – Lisboa: Universidade Aberta, 2002 _ ISBN:978-972-674-377-4;          

-STOCK, Maria José (coord.) - Velhos e Novos Atores Políticos: Partidos e Movimentos Sociais (Cap.9,10 e11) - Lisboa: Universidade Aberta, 2005 _ ISBN:972-674-455-5, (pp. 228-239; 240-257; 258-303);

-DOGAN, Mattei. «Méfiance et corruption: discrédit des élites politiques», Revue internationale de politique comparée, vol. 10, n.º 3, 2003, (pp. 415-432); (tradução nossa).                

domingo, 9 de maio de 2021

A intervenção social da internet em tempo de crise pandêmica

 


Num mundo cada vez mais global, a internet assume-se como a derradeira ferramenta que sustenta a continuidade do sistema educativo, permitindo o acesso à comunicação e informação por via dos diversos dispositivos tecnológicos, sendo que, hoje é tida como comum e devidamente embrenhada em nossas sociedades, especialmente nas mais desenvolvidas, integrando e unindo as pessoas à volta do globo.

 Neste contexto, importa perceber a sua afirmação nas nossas sociedades, como fator decisivo e indispensável na melhoria e desenrolar do nosso quotidiano. Efetivando tal raciocínio é essencial pensar em sentido inverso, ou seja, como teria sido; caso não houvesse a internet como fator de agregação em tempos difíceis como a atual pandemia do covid19.

Segundo Cunha; Sergi (2020), a propagação da internet permitiu novos processos que são recalculados a cada acontecimento novo de acesso ao conhecimento, os quais desencadeiam tendências que vão além dos usuários. A internet nas sociedades é de facto muito diversificada, atua no campo do ensino permitindo os internautas estudar varias áreas de conhecimento, conferindo um cariz altamente abrangente e completo, (GARCIA, 2010), como permite na área da saúde, (Frossard; Dias, 2016), que as pessoas doentes possam partilhar as suas próprias experiências, designadamente, com os seus familiares gerando informação desconhecida até então às pesquisas da causa e politicas publicas.

O poder de transformar da internet altera hábitos e relacionamentos, criando um ambiente de diversão e formação de identidades, reconhecida como um espaço novo de atividade humana, de caracter social, cultural e educacional, de interação com a sociedade (DIAS; CAVALCANTI, 2017).

Esta via de acesso à informação transformou as formas de comunicação relativamente a vários sectores, por exemplo, na identificação de eventos catastróficos no meio ambiente, no controlo dos recursos naturais, ou até na partilha de informação nas escolas e universidades entre professor e aluno, sendo que, à velocidade a que ocorrem as mudanças fica difícil prever o futuro.

No contemporâneo, relativamente à educação e saúde, é possível prever algumas conspeções, designadamente, melhor dinamismo, participação e colaboração; o uso de tecnologias mais rápidas e integradas; alteração do juízo de presença e de distanciamento; aumento das ofertas formativas; com o aumento da aproximação entre diferentes culturas, mediante o acesso às diferentes informações.

É por demais evidente a transformação estrutural iminente nos processos de ensino e de aprendizagem. De forma que as instituições de ensino rapidamente adaptaram-se incluindo as novas ferramentas e plataformas digitais no método de ensino, garantindo assim que a transmissão educativa não fosse interrompida, chegando até aos estudantes mais isolados.

Neste caso, o flagelo da pandemia funcionou como acelerador de reestruturação e consequente introdução das formas digitais nas metodologias de ensino.

Aqui chegados é importante perceber que este incremento de uso das novas tecnologias, por um lado despertou o caracter da sua eficácia; e por outro revelou a necessidade da modernização das instituições em cenários não pandêmicos.

O vírus modificou a perceção sobre o que era tido como mania do online, transformo-a em uma mentalidade de necessidade diária. Nesta perspetiva, existiu um despertar para problemas resultantes de um ensino não presencial, nomeadamente, sociais, devido à necessidade de subscrição de serviços; de acesso à internet e até aquisição de dispositivos.

Efetivamente, numa visão de acesso a todos à educação, obviamente os estudantes que vivem em meios rurais, sem acesso a um computador ou à internet, não podem ficar prejudicados, existindo a necessidade de encontrar uma forma de os incluir nesta nova realidade.

É neste sentido que surge a criação de políticas públicas de emergências para dirimir estas questões, uma vez que, as tecnologias digitais de informação e comunicação, pela via da internet, são nos dias de hoje a forma mais viável para a continuidade do processo de aprendizagem escolar.

Esta temática é de fato complexa; porque levanta questões em diversas áreas, designadamente, politicas, financeiras; questões antigas relacionadas à desigualdade estrutural, à pobreza e à exclusão social. A reflexão no presente artigo é importante, porque as tecnologias digitais de informação e comunicação, exercem um papel fundamental no que respeita à execução de práticas pedagógicas e educacionais, e também pelo alerta da necessidade de investimentos por parte do poder público que se revelam quase inexistentes. Este ultimo pode originar um atraso pedagógico onde as novas tecnologias não chegam, nesse sentido, o pensar sobre a sua complexidade e amplitude ajudará a compreender vantagens e desvantagens, encontrando-se entendimentos que nos vão conduzir a um futuro de maior aceitação a estas novas realidades.

Bibliografia:

Brazilian Journal of Development Braz. J. of Develop, Curitiba, v. 6, n. 10 , p.78866-78876, oct. 2020.

CUNHA, G. SERGI, M. J. A relação entre o indivíduo pós-moderno, o consumo e a internet das coisas.

SANTOS, F. M. F.; ALVES, A. L.; PORTO, C. M. Educação e tecnologias: Potencialidades e implicações contemporâneas na aprendizagem, (p. 44-61), 2018. SANTOS, B. S. A Cruel Pedagogia do Vírus. Editora Almedina. ISBN 978-972-40-8496-1, CDU 347, 2020. SILVA, M., 2003. UNESCO. Impact of Education. Disponível em: https://en.unesco.org/covid19/educationresponse. Acesso em: 09 mai. 2021.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Tendências dos fluxos migratórios Portugueses









Os fluxos migratórios Portuguesas, concretamente, as tendências e desafios. Desde os primórdios do tempo, a humanidade tem assistido a constantes circulações demográficas, quer sejam, individuais ou em grupo, de varias naturalidades geográficas, impulsionadas por várias razões, principalmente, a motivação económica. Nesse sentido, surge, nomeadamente, as Teorias do Capital que procuram analisar o porquê de alguns indivíduos emigrarem.    

De fato Portugal é um país com forte migração, que se tornou, numa componente estrutural da sua própria sociedade. Ao longo do tempo acostumou-se a observar Portugal como um país de emigração, sendo esta, uma das características de reconhecimento a nível mundial. Todavia Portugal também se tornou num pais de imigração, alteração frequentemente associada ao processo de descolonização das ex-colónias de África e às alterações políticas ocorridas em Portugal em 1974, responsáveis pela restauração da democracia…

Finalmente, estes fluxos de migração, (emigração e ou imigração), portuguesa trazem consequências positivas, nomeadamente, o aumento de receita do PIB, devido ao envio de remessas dos emigrantes, mas também negativas, por exemplo, a emigração definitiva de jovens altamente qualificados em idade ativa, tendo consequências nefastas, nomeadamente, do ponto de vista da demografia portuguesa.



Em tempos difíceis e conturbados como os atuais devido às crises económicas globais, os Portugueses procuram oportunidades de trabalho fora do seu território. De fato Portugal antes de ser um país de imigração é um país de emigração, sendo esta, ainda hoje uma presença constante na sociedade portuguesa. Desde a segunda metade do século XX e devido ao contexto económico global, que os fenómenos migratórios tornam-se numa realidade complexa e de grande importância pelo impacto causado a nível mundial. Nesse sentido, foram necessários grandes esforços na criação de mecanismos de controlo internacional e de estudo sobre as causas e consequências destes fenómenos. O fluxo migratório português era já uma realidade no séc.XV, aquando do povoamento pelos portugueses das ilhas do Atlântico, observou-se à saída de colonos nativos portugueses do Algarve e da região de entre o douro e alto Minho. Posteriormente, nas décadas seguintes, os movimentos de emigração intensificaram-se e alastraram-se aos territórios descobertos da costa africana, do oceano Indico e do continente sul-americano. Neste último, concretamente, no Brasil o movimento migratório intensificou-se a partir de finais do séc. XVIII, de sobremaneira que em algumas regiões de Portugal, assistiu-se a um verdadeiro êxodo, (Arroteia, 1985:435), principalmente, pela contratação de novos emigrantes das regiões do norte e centro de Portugal. Estes últimos para corrigir a falta de mão-de-obra, movimento que se manteve durante e pelo séc. XIX, por altura da 1ªGrande Guerra e sobe a partir da 2ºGrande Guerra, sendo que, a partir desse período o movimento expande-se à Europa. Ainda na conjuntura da migração Portuguesa, no século XX, segundo o autor Baganha, (1994:960), identificam-se dois ciclos migratórios, o 1º transatlântico, com inicio em meados do século passado até aos anos 50; o 2º é intraeuropeu e foi dos anos 60 a finais dos anos 70. Este fluxo migratório de diversidade regional é registado, principalmente, pela motivação económica, escolhendo a França como pais predileto de destino.                                                              

Em novo contexto, marcado pela crise do petróleo, mudança de regime e entrada de Portugal na então CEE, a emigração portuguesa sofreu alterações, passando de uma migração de cariz permanente, (até 1985), para uma atual de carácter temporário. Todavia é também nesse mesmo início de século que se assiste a um aumento do número de saídas, visando novos destinos, Reino Unido e Espanha, também com o reforço migratório das correntes já existentes, por exemplo, Suíça e Luxemburgo. Por outro lado, note-se a grande mobilidade de livre circulação permitida pela U.E., que conceptualmente, se reveste numa logica temporal e não definitiva. A presente realidade demonstra, apoiada em estudos doutrinários, designadamente, do autor, Jorge Malheiros, que os portugueses continuam a preferir o espaço europeu para procurar emprego. No entanto, embora a Europa seja o espaço de destino por eleição não detém o domínio nesta matéria, assistindo-se a uma redefinição das rotas de destino, concretamente, Reino Unido e Espanha. Externamente ao espaço europeu, como países emergentes temos por exemplo a Angola. Se por um lado neste último se assiste ao recrutamento com base na necessidade de mão-de-obra com qualificações intermédias ou mesmo elevadas, nos primeiros, Reino Unido e Espanha, as qualificações variam entre uma percentagem relativamente elevada em profissões qualificadas e um valor ainda maior em atividades não qualificadas. Relativamente à dimensão espacial, as migrações Portuguesas aproveitam as conexões sociais já conhecidas, França, Suíça e Luxemburgo, muito embora uma nova dinâmica de globalização e mobilidade internacional posicione o alargamento dos destinos, por exemplo, a Espanha e Angola, pela proximidade e componente histórico-geográfico.

 Paralelamente ao alargamento desta dimensão espacial, verifica-se a alteração dos perfis dos emigrantes portugueses, com alterações ao nível das qualificações, o rejuvenescimento e diversificação do tipo de emigrante e o aumento da presença das mulheres face aos homens. Aqui chegados, importa ainda referir os modos de inclusão profissional, a associação da competência face a instrução, assim como, o não regresso dos jovens emigrantes altamente qualificados, cuja presença é cada vez maior no universo dos emigrantes. Do ponto de vista da dimensão temporal é por demais evidente uma evolução crescente da emigração temporária em relação à permanente, fator que revela a intenção dos emigrantes de permanecerem no estrangeiro por curtos períodos de tempo, (1ano). Do ponto de vista motivacional, os portugueses emigram na sua maioria, por instabilidade económica, (emigração económica). Sumariamente, a definição contemporânea do emigrante português, insere-se num registo de emigração temporária jovem, onde 55% dos jovens têm menos de 30 anos e são na sua maioria do sexo masculino, embora se verifique um aumento crescente do número de mulheres. Da perspetiva das habilitações, a inclusão profissional da maioria com baixos níveis de instrução ou médio baixos, são absorvidos em segmentos menos qualificados, embora o número de jovens com níveis de instrução médios e elevados tenham aumentado. Relativamente à variedade de perfis do emigrante, esta tem sido acompanhada pelas mudanças de destino; pelos denominados países emergentes, Angola, Brasil e China que se assumem como polos de emigração qualificada e técnica. Na perspetiva da politica de imigração recente dos refugiados, que buscam países da U.E., para se instalarem, Portugal revelou-se estar à altura dos desafios, conseguindo, (contrariamente a outros que inclusive fecharam fronteiras), acolher, cuidar e inseri-los na comunidade. Efetivamente, alguns são forçados a emigrar por necessidade, mas também não pode ser descurado o número daqueles que são levados pelas metas e objetivos, criando um problema demográfico, uma vez que, se as saídas forem massivas poderão impedir o crescimento económico do país. Atento a facilidade com que hoje se pode ser um emigrante, carece de medidas atrativas para colmatar a saídas, (abordagem de Böhning).

Na minha opinião, a abordagem deve ser feita em termos macro e num cariz de maior solidariedade capitalista, ou seja, deve haver um equilíbrio remuneratório aceite mundialmente, onde instituições como a União Europeia, as Nações Unidas; podem e devem contribuir para essa construção ideológica. Nesse sentido, esta temática da migração nacional e suas consequências, nomeadamente, Brain Drain e Guestworker carece de máxima atenção nas agendas políticas, uma vez que, está em causa o desenvolvimento do país e até a nossa identidade nacional. 

Resumindo é de extrema importância, analisar sempre a migração Portuguesa e suas consequências, do ponto de vista micro e macro, pois não só temos a responsabilidade do desenvolvimento nacional, e honrar os compromissos com a U.E; como também devemos preservar a nossa identidade nacional, quer isto dizer a nossa gente.

 Conclusão, fluxos migratórios Portugueses em análise, são de caráter temporário, privilegiam a Europa, com uma tendência de rejuvenescimento do seu universo e face á expansão do mercado de trabalho um reforço nas qualificações, assim sendo, Portugal atendendo à sua dimensão económica e características, assume-se com um duplo papel, de recetor e emissor de mão-de-obra, num contexto de integração europeia e de globalização.

Bibliografia

Monografias:

- Arroteia, Jorge (1985), "Aspetos recentes da emigração portuguesa", Revista Crítica de Ciências Sociais (15/16/17), (pp. 435-443).

(Ultima consulta 2017-12-17 ás 20h00). http://www.ces.uc.pt/rccs/includes/download.php?id=3451

 

- Baganha, Maria Ioannis, 1994, As correntes emigratórias portuguesas no século XX e o seu impacto na economia nacional, Análise Social, XXIX (128), (pp.959-980).

(Ultima consulta 2017-12-17 ás 20h00). http://www.observatorioemigracao.secomunidades.pt/np4/592

 

- Marques, José Carlos, 2001, A emigração portuguesa para a Europa: desenvolvimentos recentes, Revista Janus, 146-147 (Ultima consulta 2017-12-17 ás 20h00). http://www.observatorioemigracao.secomunidades.pt/np4/592

 

- Rocha-Trindade, Maria Beatriz (coord.), 1995- Sociologia das Migrações. 1ª Edição – 3ª impressão Lisboa: Universidade Aberta. Agosto 2008. ISBN 978-972-674-162-6

 

- Peixoto, João, 2004, As Teorias Explicativas das Migrações: teorias Micro e Macro-Sociológicas, Socious Working Papers, Nº11, Lisboa, UTL (Ultima consulta 2017-12-17 ás 20h00). https://www.repository.utl.pt/bitstream/10400.5/2037/1/wp200411.pdf

 

- Peixoto, João, 2001, Migrações e políticas migratórias na União Europeia: livre circulação e reconhecimento de diploma (Análise Social, vol. XXXVI (158-159), 2001, 153-183) (Ultima consulta 2017-12-17 ás 20h00). http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1218726268N3vZK0ty5Mj52AE8.pdf


João Carriço